Minha mãe foi, junto com meu pai e um grupo de jovens judeus idealistas, a pioneira na construção de um renomado hospital na capital paulistana. Montou um corpo de voluntariado totalmente comprometido com as políticas sociais tanto da favela adjacente ao futuro empreendimento quanto na capacitação de todo o entorno do bairro.
Ficou viúva com 26 anos, meu pai, o jovem engenheiro, idealizador e construtor do Hospital, com 36 anos não pode ver seu sonho solidificado
Ela, então, voltou-se integralmente a esse trabalho.
Éramos 3 filhos, eu, a menor.
Em poucos anos, casou-se novamente. Ele foi um bálsamo de cultura e cuidado a todos nós.
Além de Israel – meu padrasto – veio morar conosco a sua filhinha de 5 anos. Ele também enviuvara muito jovem, e pouco tempo depois, nasceu Gilson, meu irmão 5 anos mais novo do que eu, o amálgama de todas as pontas soltas.
Portanto, eu e Gilson éramos as crianças menores que ficavam aos cuidados de uma babá portuguesa, quase que integralmente.
Hilda era seu nome. Forte, muito gorda, com um bonito e estranho rosto bolachudo. Foi através dela que aprendi, pela primeira vez, como lidar com sentimentos controversos. Ela me produzia sentimentos misturados: pena e raiva.
Pena porque ela praticamente vivia em casa, e sentia muita falta dos parentes além-mar, Trás-os-Montes, como ela dizia suspirando, após cantar alguma música do seu país.
Raiva porque minha mãe acreditava piamente nela e não ouvia nossas queixas justificadas.
Por vezes, ela era a que nos protegia dos mais velhos. Outras, a que nos dava tapinhas corretivos para manter a pauta da disciplina atualizada, vai entender…
Nas folgas, de final de semana, pela manhã, nos levava para passear.
Um belo dia nos levou, eu e Gilson, a uma Igreja próxima de casa e nos matriculou num curso de catecismo.
Fizemos o curso por um ano.
Perto do término, eu feliz da vida, e próxima dos meus 10 anos, digo à minha mãe que já estava pronta para fazer a primeira comunhão e que sentia muito orgulho em ser excelente aluna, conforme ouvira das próprias irmãs da Igreja São José.
Minha mãe arregalou os olhos, suspendeu a respiração e pediu que eu repetisse o que havia dito.
Sim, mãe estou pronta, podemos escolher a roupa? Sou ótima aluna, falava com orgulho próprio.
Como assim? Falava em desequilíbrio a voz materna.
Como assim, que Igreja? Repetia incrédula. E muito provavelmente vasculhando mentalmente o que deixou de perceber por longo tempo.
Você é judia! E judeus não vão à Igreja, tampouco tomam aulas de catecismo.
Achei muito injusto para com as bondosas irmãs. Como uma boa Aquariana da gema, sempre tive curiosidade pelo diferente e inclusivo, e eu gostava de verdade de estar com as freiras.
Não tinha a menor noção do que aquele tal brasão judaico, recém polido pela ira materna, iria aprontar comigo e com meu futuro religioso, mas pressentia que não iria terminar minha tão aguardada comunhão. E meu sonhado vestido iria para o brejo.
Um ano após esse deslize dogmático, eu estava matriculada em uma escola judaica, e iniciando o curso de bat mitzva. A primeira comunhão das menina judias, que se faz aos 12 anos. Obviamente que adorei, porque no lugar da austeridade das irmãs católicas, eu tinha um rabino bonito, moderno, com humor refinado, e muito inteligente, que nos provocava o pensamento e havia recém-chegado dos EUA. Tinha um sotaque caricato que nós fazia imitá-lo sistematicamente, o qual ele fez questão de manter- muito provavelmente por mero charme- até o final da vida.
Lembro que naquela época, era algo muito inovador celebrar “bat mitzva”, ao contrário dos estrondosos festejos para os “bar mitzvas” dos meninos judeus, as meninas poderiam se contentar com bem menos.
Eu cheguei perto do rabino e pedi se ele poderia deixar cada uma das meninas ler um trecho da sagrada escritura. Ele tinha milhares de sensores ao seu redor, estávamos no meio de uma ditadura, qualquer mudança de protocolo poderia soar como um ato subversivo.
Mas, claro, falávamos de Henri Sobel, o destemido, e ganhamos uma a uma o direito de ler um pequeno trecho, algo que só era usual aos meninos, e, de quebra, poderíamos acrescentar algo poético da nossa livre escolha.
Muitos anos se passaram para que eu pudesse entender melhor por qual motivo fomos parar dentro de uma Igreja para sermos iniciados no catecismo, levados por uma portuguesa muito pouco piedosa.
Era uma estratégia que Hilda usou para sermos os álibis para que ela nessas quase 2 horas sob olhares para lá de vigilantes dentro da Igreja tendo aulas numa sala escura e úmida, com freiras amorosas, que até hoje ao entrar em uma Igreja sinto o carinho delas, aproveitar o tempo que tinha enquanto éramos catequisados, para ir atrás dos seus devedores nas redondezas.
A forte Hilda, além de baba era a maior agiota da região…







