Enquanto a Cabala estuda o lado oculto e místico da religião judaica, o exorcismo estuda a aplicação de códigos e símbolos usados para blindar as pessoas vulneráveis de espíritos invasores.
Lembro de minha avó falando do mau – olhado, o tal “guit oiguen”, em ídiche, que é algo próximo de “ que o olhar dessa pessoa seja um bom olhar ”.
Dependendo de quem estivesse falando, ela cruzava os dedos, com as mãos escondidas nas costas para ninguém perceber e proteger as crianças do mau – olhado.
Há quem diga ser crendice ou superstição, mas fato é que existem estudos seríssimos na mística judaica.

Na casa de um amigo religioso fui apresentada a um rabino ortodoxo, cabalista e exorcista que estava de passagem por São Paulo a caminho de Israel. Marquei uma sessão em minha casa, pois queria entender melhor do que se tratava.

O rabino era uma pessoa humilde e amorosa. Mas só falava hebraico. Arranhava algo próximo de um inglês gutural.
Ele fez o processo de limpeza energética na casa, entoou cânticos, utilizou sete cadeados abertos. Fez um símbolo em cada um e me pediu que jogasse as chaves em um rio ou mar que eu gostasse.
Falou sobre composições numéricas e desenhou algumas formas geométricas no dorso da minha mão, símbolos de proteção que deveriam permanecer por três dias e três noites. Tudo com a supervisão do nosso amigo em comum que era o tradutor.
No final da sessão, já de madrugada, o amigo me pediu para deixar o rabino no hotel.
Quando fui levá-lo, ele me perguntou se eu poderia ajudá-lo com – “DABETS”.
– Tablets?

-Yes, rabi, of course what can I do for you? Do you need something from the internet? – Falei apontando meu celular – I have Google in here. Youuu cannn useee itt!! – Achando que ele entenderia melhor falando assim.
-Ló ló ló (não não não, em hebraico) ele disse movimentando a mão em negação.
Começamos a usar a única linguagem universal possível na falta da boa comunicação verbal: mímica.
Ele ria e eu ria.
Percebi que ele estava um pouco aflito. E balbuciava, tabets, tebets, ou algo parecido.
Soltou no seu inglês: “I téébets”
Apontando para ele e para algo que eu não conseguia decifrar.
Percebi a tensão aumentando.
Queria ajudá-lo, mas como?
Eu tentava jogar palavras, tudo em vão.
Mostrou um local distante, segundo minha míope interpretação, para dizer que não era lá, no carro, mas em outro lugar.
Ele balbuciava novamente. Tábets, Téebts, Tibet’s ele tentou.
Tibet’s?
Quén Quén ( sim sim, em hebraico)
Ah, disse eu feliz da vida por finalmente ter entendido.
Havia perguntado de onde ele estava chegando, onde estivera antes do Brasil. Como ele não havia respondido, apenas sorrido, achei que agora ele tinha entendido…

E ele: “Tibet’s” apontando sabe-se lá pra onde.
Eu, imaginando ter descoberto a pólvora: Ahhh, veio do Tibet! Que maravilha, me conte tudo! Tell me Rabi about your trip! It must have been amazing!
Estava achando incrível um ortodoxo ter ido ao Tibet. Sabe-se lá fazer o quê, mas já já saberia…
Ele me olhava como se eu fosse um alienígena recém – chegado à Terra.
Me mostrou o braço e uma suposta injeção feita com os dedos.
A ficha caiu. Meu Deus! O rabino estava tentando me dizer que precisava de algo para sua diabetes! DABETS!!! Diiibets Tii (a)bets!
Ele dizia apontando a imaginária injeção. E emendava “sugar” e algo que não entendi.
Ele estava tendo uma crise de hipoglicemia.
Pensei em parar em uma farmácia e pedir ajuda, mas todas pelas quais passamos estavam fechadas!
Vasculhei as poucas palavras que lembrava em hebraico à procura de uma saída.

Uma laranja?!
Ah, disso eu lembrava porque na minha adolescência havia um programa especial onde os jovens eram incentivados a ir para Israel ajudar na colheita das laranjas.
Tapuz!
Quén quén (sim sim)
Entrei no hotel com ele e pedi na recepção que lhe enviassem um suco de laranja e mais tarde verificassem se ele precisava de algum médico.
Pronto. O rabino exorcista estava são e salvo. Voltei para o carro rindo muito. Deus, que atrapalhada! Tibet!

 

Como dizia minha sábia mãe: reza para que naquela hora do dia – a hora da ignorância – você esteja dormindo.
Só que dessa vez eu estava acordada e exorcizada.

Lilian Kogan

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